ALIMENTOS

 


Um engano aos olhos o seu caule frágil e esguio na elegância eminente da queda ou quebra ou morte até pelo sopro. Que se engane quem é enganado pelos olhos cerrados do perfume que abre estradas até ao invisivel adocicado da flor-ervilha que todo o ano se firma no rigor do frio e fixa aromas nas flores singelas do que não se come mas alimenta Primaveras.
 
 

A QUEDA DO REI

 
 
 
 
Veio a caír devagarinho sem ninguém se aperceber, mais ainda porque continuou a bufar quentinho enganando. Mas os cheiros pela manhã nascida eram os molhados e cristalinos de quem já não aguentava a força de queimar cascas de árvores e tisnar frutos tenros. Só os robustos se enrouparam às aragens esperançosas do Outono que chega de gola levantada. O Rei deposto no aroma lembrado.
 


TENTAÇÕES

 


Lembro, lembro sim. Das caras, de quantos éramos, das brincadeiras, das corridas e dos Verões e dos banhos de mangueira e dos gritos, tantos gritos que chamavam mais gritos. Mas o que tenho mais presente é o campo de alfazema. Estradas roxas que nos estavam proibidas e que embebedavam pelo aroma que ía pelos ares e ventos e provocava o nosso apetite e vontade de cometer a infracção. E quando lá regresso, mesmo já nada havendo, ainda sinto aquelas filas muito direitas e perfumadas a chamarem por mim, tentadoras e eu, hesitante, fico-me de nariz no ar...
 
 
 
 

O CHEIRO DA MÃE

 


Quadrifonia de odores, estações da memória, bricolage dos sentidos. Em qualquer lugar o meu nariz era capaz de me levar até ela, no meio da multidão, através de mil perfumes, a rasgar outros aromas como um animal no desmame que ainda procura a réstia do leite no aconchego do pêlo.
Mesmo agora, todos estes anos corridos, a venda escura atada, ainda se solta no ar um leve tom do seu sentir e eu sei-o, aspiro-o, recordo-o no meu peito, na minha cabeça, na minha saudade.

O LAÇO




Recordar-me-ei para sempre daquele dia. As duas, sentadas muito solenes na sala de jantar como se fosse ocasião especial porque só íamos para aquele cómodo em alturas especiais. Havía uma bandeja de chá e um prato de bolos. Não sei porque não falávamos, mas não o fazíamos e estávamos as duas assim, constrangedoramente à espera uma da outra que desse inicio a uma conversa banal para pôr fim a um silêncio que arrefecía o chá. Olhaste-me, vi-te lágrimas, falaste tão baixo que quase tive dificuldade em seguir-te. Ou talvez não quisesse. O que me ficou foi o teu perfume. É essa a imagem que tenho de ti, um laço à volta do meu pescoço, uma fita muito suave e perfumada. E não preciso de mais nada.
 
 

PENSAR LAVANDA SER LAVANDA


 
 
Isso é só um papel de parede, nada mais que papel de parede, um bonito papel de parede, romântico papel de parede, como todos os românticos papéis de parede vai acabar por cansar.
 
Não. São flores. Flores que tiveram coragem de crescer pelas paredes, romper pedra e caliça, fazerem sorrir olhos e bocas, enfeitarem corpos deitados em amor vertical, vestirem paixões nas mãos escondidas entre folhagem e botões novos e aromas de endoidecer.
 
É papel de parede com flores, muitas flores, talvez flores em demasia, não tem cheiro, é papel.
 
São flores, são papel. E palavras em papel sempre serão flores. Por isso, fecha os olhos e sente o perfume.
 
 
 
 

APRE(E)NDER



Cheira-me a fome. Cheira a instinto. Cheira a obrigação. Religião, combate, infância, crença, caminho, destino, pão.
Cheira bem.
Cheira a carne. Cheira a sangue. Mulheres, mulher, mãe, querer ser mulher, querer ser mãe, querer cheirar bem.
Sentidos.
Sentido. Marchar, ir, crescer, apurar, perfumar.
Chegar.
Partir.
Deixar rastos de aromas.
 
 

AROMAS COMO CARNE DE VIDA




Nunca será tarde para sentir a cor do perfume, o âmbar das mãos, a saudade do gosto. Alimentos da alma como dos cinco sentidos, infâncias memoráveis, rosas frescas ou recordações apertadas nas pétalas escondidas entre páginas virtuais tudo será hoje e agora se eu quiser. Quero rosas porque quero sedas, quero carmim porque cheiro vida.