ALFAZEMAS DO LEMBRAR

 



Impressões da memória, tipografias a roxo como marcas em brasas que deixam viva a carne ferida e depois o tempo sopra no alivio da dor, crosta que cria, rebordo que moldura, cheiro que lembra.
Não esqueci.
Eu não esqueci o cheiro da alfazema, nem mesmo quando esboroada de seca esquecida entre páginas de livros arrumados ou porque as mãos apertaram aromas picantes em verde e o ardor dos momentos evaporou o significado do dizer.
Eu digo que não esqueci.
Porque alfazemas sempre serão alfazemas a perfumar a minha memória.



ALIMENTOS

 


Um engano aos olhos o seu caule frágil e esguio na elegância eminente da queda ou quebra ou morte até pelo sopro. Que se engane quem é enganado pelos olhos cerrados do perfume que abre estradas até ao invisivel adocicado da flor-ervilha que todo o ano se firma no rigor do frio e fixa aromas nas flores singelas do que não se come mas alimenta Primaveras.
 
 

A QUEDA DO REI

 
 
 
 
Veio a caír devagarinho sem ninguém se aperceber, mais ainda porque continuou a bufar quentinho enganando. Mas os cheiros pela manhã nascida eram os molhados e cristalinos de quem já não aguentava a força de queimar cascas de árvores e tisnar frutos tenros. Só os robustos se enrouparam às aragens esperançosas do Outono que chega de gola levantada. O Rei deposto no aroma lembrado.
 


TENTAÇÕES

 


Lembro, lembro sim. Das caras, de quantos éramos, das brincadeiras, das corridas e dos Verões e dos banhos de mangueira e dos gritos, tantos gritos que chamavam mais gritos. Mas o que tenho mais presente é o campo de alfazema. Estradas roxas que nos estavam proibidas e que embebedavam pelo aroma que ía pelos ares e ventos e provocava o nosso apetite e vontade de cometer a infracção. E quando lá regresso, mesmo já nada havendo, ainda sinto aquelas filas muito direitas e perfumadas a chamarem por mim, tentadoras e eu, hesitante, fico-me de nariz no ar...
 
 
 
 

O CHEIRO DA MÃE

 


Quadrifonia de odores, estações da memória, bricolage dos sentidos. Em qualquer lugar o meu nariz era capaz de me levar até ela, no meio da multidão, através de mil perfumes, a rasgar outros aromas como um animal no desmame que ainda procura a réstia do leite no aconchego do pêlo.
Mesmo agora, todos estes anos corridos, a venda escura atada, ainda se solta no ar um leve tom do seu sentir e eu sei-o, aspiro-o, recordo-o no meu peito, na minha cabeça, na minha saudade.

O LAÇO




Recordar-me-ei para sempre daquele dia. As duas, sentadas muito solenes na sala de jantar como se fosse ocasião especial porque só íamos para aquele cómodo em alturas especiais. Havía uma bandeja de chá e um prato de bolos. Não sei porque não falávamos, mas não o fazíamos e estávamos as duas assim, constrangedoramente à espera uma da outra que desse inicio a uma conversa banal para pôr fim a um silêncio que arrefecía o chá. Olhaste-me, vi-te lágrimas, falaste tão baixo que quase tive dificuldade em seguir-te. Ou talvez não quisesse. O que me ficou foi o teu perfume. É essa a imagem que tenho de ti, um laço à volta do meu pescoço, uma fita muito suave e perfumada. E não preciso de mais nada.
 
 

PENSAR LAVANDA SER LAVANDA


 
 
Isso é só um papel de parede, nada mais que papel de parede, um bonito papel de parede, romântico papel de parede, como todos os românticos papéis de parede vai acabar por cansar.
 
Não. São flores. Flores que tiveram coragem de crescer pelas paredes, romper pedra e caliça, fazerem sorrir olhos e bocas, enfeitarem corpos deitados em amor vertical, vestirem paixões nas mãos escondidas entre folhagem e botões novos e aromas de endoidecer.
 
É papel de parede com flores, muitas flores, talvez flores em demasia, não tem cheiro, é papel.
 
São flores, são papel. E palavras em papel sempre serão flores. Por isso, fecha os olhos e sente o perfume.
 
 
 
 

APRE(E)NDER



Cheira-me a fome. Cheira a instinto. Cheira a obrigação. Religião, combate, infância, crença, caminho, destino, pão.
Cheira bem.
Cheira a carne. Cheira a sangue. Mulheres, mulher, mãe, querer ser mulher, querer ser mãe, querer cheirar bem.
Sentidos.
Sentido. Marchar, ir, crescer, apurar, perfumar.
Chegar.
Partir.
Deixar rastos de aromas.
 
 

AROMAS COMO CARNE DE VIDA




Nunca será tarde para sentir a cor do perfume, o âmbar das mãos, a saudade do gosto. Alimentos da alma como dos cinco sentidos, infâncias memoráveis, rosas frescas ou recordações apertadas nas pétalas escondidas entre páginas virtuais tudo será hoje e agora se eu quiser. Quero rosas porque quero sedas, quero carmim porque cheiro vida.

UM ANO DE ODORES


Até da pedra se extrai o encanto do perfume rugoso, das manchas licorosas que o tempo bafejou e lhe contou anos, do arredondado do cheiro que as mãos libertam na rocha trabalhada a noites e desenhos de outros castelos que se amontoam sem alicerces que não o sonho. Cheirar. Cheirar os sonhos, nada ver, apenas sabê-los a libertar o seu veneno...

GIESTAS



As giestas hão-de voltar, sei que sim, até podem demorar um pouco mais por causa dos frios, mas sei que estão dentro de si, protegidas, à espera dos seus dias. Primeiro os botões, duros, enrolados, depois o aroma orvalhado pela madrugada a entrar pelos campos fora numa correría que deixa doidos os mais novos. As giestas hão-de voltar sim, e o perfume delas há-de lembrar até chegarem sempre e todos os anos mesmo que tardem, hão-de voltar como tu hás-de regressar. Não importa quando, tão pouco importa se vens com o tempo das giestas, ou se as giestas se encolhem nesse dia e resolvem não aparecer mais. Mas tu vens, sei que me hás-de deixar doida como os tempos antigos em que as giestas eram do nosso tempo.

EU SOU DAQUI



As manhãs têm um perfume tão intenso. Deve ser porque estiveram toda a noite a descansar e quando acordam para o dia se exibem garbosas do seu cheiro caracteristico.

Aquela manhã não era diferente. Era o contraste de uma noite de essências misturadas entre o fabricado, o fumo de tabaco, os cheiros dos homens e das mulheres. À beira-mar, lisa de águas que havíam fugido para outro oceano restava o pico dolorido do iodo. Entrava pelas narinas sem pedir permissão, alagava-se pelos pulmões, sentía-se à vontade para trazer as recordações à luz do dia.

Ela ficou calada, deixou que o ar húmido lhe engelhasse o vestido de noite e os cabelos. Naquela manhã só interessava ver-se como criança a empilhar baldes de areia molhada e a construír castelos em que inventava princessas aflitas à espera que o cavaleiro a salvasse do dragão.

Inspirou longa, fortemente. Virou costas e trouxe no olfacto um bocadinho do que já fora.

MAGIAS


E o que é isso?
Uma garrafa.
Isso sei eu. E depois?
Uma garrafa especial que depois de destapada liberta cheiros maravilhosos.
Ah! De perfume?
Não.
Não?
Cheiros de outros tempos.
Então cheira a velho.
Não, cheira a recordações.

PRIMAVERA


Apontou o queixo, o nariz guiado pelo instinto.
Cheira a morno. E a abelhas, e a pequenos troços verdes que borbulham nos galhos e também a fetos que se desenrolam vagarosamente sob a luz do meio-dia, a gotas de suor na cova do pescoço e detrás das orelhas depois de correr de braços abertos sentindo o ar a tomar-lhe os sentidos como uma bebedeira que esperou pelo momento certo para toldar o racional, jurar que as andorinhas eram as mesmas de há muitos anos e todo o sol não passava de um guache amarelo que aguou incontrolável até onde os olhos podem alcançar.

MUNDO DE ODORES



Entrar sem autorização era o menos. O gosto que a fazía salivar eram os aromas -para ela intimos, secretos- daquele universo no masculino que a entontecía de tantas perguntas, uma curiosidade obssessiva, cheiro de homem, cheiros verticais chamava-lhe. Eram os couros do sofá, da pasta surrada, da agenda de bordos envelhecidos, do cognac dormente e fogoso, o aroma a cascas de árvore a saír da cigarreira, a cera adocicada da secretária macia no sitio onde pousam os braços da escrita, o lenço, a gravata, o roupão todos embebidos de uma alfazema macerada pelo odor do corpo, o perfume dos livros e ainda o das mãos ausentes nos instantes que ladra roubou ao mundo dele para encher o seu.

Fechou a porta devagarinho e saíu feliz.

ACRE


Cobriu o rosto.
Cheirava-lhe a medo.

CHEIRO DE SAUDADES


A saudade cheira a árvores molhadas pelo nevoeiro que acorda a madrugada, a musgos cinzentos e húmidos que escondem rebentos que dormem, a raízes cravadas no coração da terra.

AROMAS DO TEMPO


Em Janeiro chegaram a vez das laranjas gordas, reboludas, de casca irregular como poros da pele, um circulo num dos polos, muito sumarentas e doces como mel.
Golpeou-a na metade, contou-lhe os gomos, doze disse, um cheiro por cada mês do ano, assim o perfume do tempo nunca te esquecerá, lembrarás das laranjas como sol que perfuma os dias longos e os dias pequenos, mesmo que seja noite e que o cinzento achumbe o céu. Serão doces recordações, sentires de infância que se imprimem até ao Janeiro da idade crescida.

MÁQUINAS DE CHEIRAR


A perfeição do olfacto.

A CHUVA TAMBÉM TEM CHEIRO



A chuva tem cheiro de terra viva, terra a crescer, terra a esconder verdes que hão-de depois amadurecer. Chuva madura, daquela tombada em contínuo fio, de bagas largas como poças, alagadas na mancha dos odores de enxofre. Chuva de choro, lembra-me crianças, cabelos molhados, cheiro de lã e pó-de-talco, de madeiras estaladas no lume de pinhas e caruma, chá de limão e mel. Chuva de cheiros, ramalhete de viagens pelo tempo.